dez 062011
 

Este artigo tem o objetivo de apresentar os aspectos formais e conteudísticos presentes no poema “Verdade”, de Carlos Drummond de Andrade. A análise do poema foi feita dentro do plano denotativo e conotativo, tendo em vista as demais características do discurso literário. Considera-se a subjetividade por parte do leitor, no que diz respeito à interpretação do poema.

Carlos Drummond de Andrade é considerado o maior poeta brasileiro do século XX e para alguns o maior de todos os tempos. A obra de Drummond é dividida em quatro fases bem distintas: Fase gauche (1ª fase): relacionados à geração modernista de 1922, os poemas possuem características como verso livre, coloquialismo, humor e predomínio da subjetividade. É possível perceber certo isolamento, individualismo e reflexão existencial. Fase social (2ª fase): predomínio de temas sociais, como o Estado Novo e a Segunda Guerra Mundial. O poeta manifesta interesse por problemas sociais, dos quais se manteve alienado na primeira fase. Fase filosófica (3ª fase): na década de 1950, o poeta mostrou-se desencantado de sua aventura política. Os poemas dessa fase são pessimistas, revelam preocupação com aspectos formais como a regularidade dos versos, e, abarcam temas como a vida, a morte, o tempo, a velhice, o amor, a infância e a própria poesia. Síntese das fases anteriores (4ª fase): na última fase, os poemas de Drummond retomam o humorismo e a ironia da primeira e aprofundam temas que nortearam a vida do escritor: infância em Minas, a família, o amor, a morte, os amigos.
Dentre muitos poemas e inúmeras obras, o poema a ser analisado será “Verdade”, de Carlos Drummond de Andrade, tendo em vista os aspectos formais e conteudísticos. Abaixo o referido poema:

Verdade

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

(Carlos Drummond de Andrade)

Antes de aprofundarmos na estrutura e significação do poema, retomaremos o conceito de literatura de suma importância para a abordagem não apenas de um poema, como do rico manancial que trata a literatura em toda a sua especificidade. Segundo Aristóteles, “A literatura é tradicionalmente entendida como uma arte verbal, a arte da palavra”. Domício Proença Filho, em seu livro “A linguagem literária”, cita que: “A literatura tem como suporte uma língua, um produto cultural” (p.30). “A literatura é, pois, um sistema semântico em que se destaca a conotação” (p.36). “…a linguagem literária é eminentemente conotativa”(p.38). “A literatura, na verdade, cria significantes e funda significados”(p.44).

Podemos perceber na primeira leitura do poema “Verdade”, que o autor empregou a norma culta da língua, com a devida pontuação, acentuação gráfica, organização textual, iniciando os versos com letras maiúsculas após o ponto final, concordância verbal e a colocação pronominal/topologia pronominal (próclise). A primeira estrofe possui três versos, a segunda com seis versos, a terceira com cinco versos e a quarta com quatro versos, sendo denominados respectivamente como: terceto, sextilha, quintilha e quadra. O gênero textual é poema/poesia. A função da linguagem predominante é a função poética, também chamada de fantástica, na qual se “cria” uma realidade, configurada sobre tudo numa obra de arte literária. É através dos signos que se “cria” essa realidade. Segundo a conceituação de Charles Sanders Peirce, signo pode ser entendido como qualquer elemento que, sob certos aspectos e em certa medida, representa outro.

A conotação está presente nas quatro estrofes do poema, os principais vocábulos que enfatizam esse simbolismo, que permeia todo o poema são: porta, verdade, meia, pessoa, perfil, segunda e metade. O jogo de palavras feito por Drummond , nos traz o que podemos dizer de enigma, que necessita ser decifrado. O texto literário resulta de uma criação, feita de palavras e que através do arranjo especial delas que emerge o sentido múltiplo de todo o poema. O poema apóia-se no significado, mas a predominância é no significante, ou seja, o sentido literal está presente, mas a essência da multissignificação das palavras sobressai no texto. A multissignificação é, pois, uma das marcas do texto literário como tal. É o traço que permite, entre outras, as múltiplas leituras existentes da obra de Carlos Drummond de Andrade. A permanência de determinadas obras se prende ao seu alto índice de polissemia, que as abre às mais variadas incursões e possibilita a sua atemporalidade.

A interpretação do poema se dá mediante a significação que os vocábulos “verdade”, “meia” e “pessoa” representam no texto. A palavra “verdade” pode ser interpretada como poema(s)/poesia(s), “meia (metade)” como a palavra no sentido denotativo ou conotativo e “pessoa” seria a própria palavra/palavras. A porta da verdade, seria a porta do conhecimento para a criação dos poemas, em que o jogo de palavras nos dois planos de significação serve de elo para a harmonização do texto. O meio perfil pode ser entendido como um dos perfis da palavra, ou seja, sentido literal ou figurado. Essa afirmação está baseada em uma estrofe do poema “Procura da poesia”, também de Drummond. Após a leitura desse fragmento, podemos notar que ele retoma o poema em análise.

Antologia Poética – Carlos Drummond de Andrade

Procura da Poesia – 7ª estrofe:

“Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
Há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sos e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
Com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?”

Partiremos do pressuposto para a associação de ideias, alguns versos desse fragmento que completam o sentido de alguns versos do poema “Verdade”. “Reino das palavras” seria “o lugar luminoso que a verdade esplendia seus fogos”. “Ei-los sos e mudos, em estado de dicionário”, seria a “metade” no sentido denotativo, literal. Em “Espera que cada um se realize e consume / Com seu poder de palavra/ e seu poder de silêncio” retoma o plano simbólico, em que a palavra como item polissêmico possui o poder de inúmeras interpretações. “Tem mil faces secretas sob a face neutra”, nesse caso as mil faces secretas(significante) são as diferentes significações que uma mesma palavra possui.

A preposição sob significa abaixo de, ou seja, as faces secretas estão subtendidas e que pode ser utilizadas a partir da face neutra(significado), presa ao dicionário. Com isso, podemos retomar os versos “Chegou-se a discutir qual a metade mais bela / Nenhuma das duas era totalmente bela”( Verdade, C.D) , porque é necessário para a criação de um poema a variabilidade que a palavra pode representar dentro do contexto, uma depende da outra, não é possível discutir a maior beleza de uma das metades porque ambas se completam. No final da estrofe, o verso “Trouxeste a chave?” , indaga a respeito da chave que irá abrir a porta da verdade, não houve resposta, por isso “Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta” para chegar ao reino das palavras.

Podemos considerar que o poema em questão possui o que se pode chamar de estética nietzcheana, já que inúmeros poemas de Drummond estão à luz de pensamento de Nietzche. Há uma noção, no pensamento de Nietzche, chamada “Amor fati”, uma expressão latina que ao pé da letra, quer dizer amor ao destino, e que podemos interpretar como sendo uma afirmação incondicional da vida mesmo no que ela tem de mais estranho, de mais terrível, de mais difícil de ser enfrentado.

O amor fati é uma espécie de atitude estética diante do mundo, um modo de transformação da dor em beleza, em alegria, em arte. Não significa que não haja um pessimismo diante da vida, mas esse pessimismo é chamado de Nietzsche de “pessimismo da força”, ou seja, um pessimismo afirmativo, inconformado e, sobretudo, um pessimismo destruidor e, ao mesmo tempo criador. É como se o desejo da vida fosse um só: o de “que cada coisa seja uma coisa bela”. Que a lâmina corte, mas que seja doce. Drummond, afirma que “o que perdeu, se multiplica e que há uma pobreza feita de pérolas que salva o tempo e resgata a noite. E que já não pode classificar os bens preciosos, porque tudo é precioso”.

Concluímos que a análise do poema “Verdade” permite inúmeras interpretações, dependendo do grau de conhecimento literário por parte do leitor. Acredito que o trabalho tenha servido como fonte de informação e para possíveis pesquisas quanto às obras do nosso eminente poeta Carlos Drummond de Andrade. Não houve a necessidade de se estender mais do que foi solicitado, visto que a riqueza literária do poema permitia uma análise mais abrangente.

Daiana Moura

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